A figura paterna no desenvolvimento infantil
Pesquisas revelam a influência específica do pai no
fortalecimento da empatia
novembro de 2014
Peter/Shutterstock
Pais de adolescentes sabem muito bem: não é nada fácil lidar
com crises e desafios escolares e sociais que com frequência aparecem na
passagem da infância para a idade adulta. Surgem muitas dúvidas quando se trata
de escolher o melhor modo de lidar com os impasses, até porque, não raro, as
questões dos jovens remetem os adultos às angústias já vividas por eles nessa
etapa (nem sempre elaboradas). No entanto, ser um bom pai tem muito a ver com
aceitar os filhos – embora seja mais fácil dizer isso do que agir,
principalmente quando aparecem com uma tatuagem ou quando os pais recebem uma
ligação da escola convocando uma reunião para falar do mau comportamento.
O psicólogo Ronald P. Rohner, pesquisador da Universidade de
Connecticut, estuda as consequências da rejeição de crianças e adolescentes
pelos pais e a influência que o olhar parental tem sobre aspectos importantes
da personalidade. Jovens que se sentem acolhidos em casa costumam ser mais
independentes e emocionalmente estáveis, têm maior autoestima e mantêm uma
visão positiva do mundo. Aqueles que se sentem rejeitados não raro demonstram o
oposto: hostilidade, sentimentos de inadequação, instabilidade e uma visão
negativa das mais variadas situações.
Em seu trabalho Rohner analisou dados de 36 estudos sobre
aceitação e rejeição dos pais. “Não parece haver dúvidas de que o investimento
emocional tanto materno quanto paterno está associado com essas características
de personalidade”, afirma o psicólogo. E, segundo ele, o afeto do pai é tão
importante quanto o da mãe. “Culturalmente, a grande ênfase na figura da mãe
levou a uma tendência inadequada de responsabilizá-la pelos problemas de
comportamento das crianças quando, de fato, o homem está muito mais implicado
nessas situações do que as pessoas em geral imaginam.”
O pai parece ter também um papel surpreendentemente
importante no fortalecimento da empatia dos filhos. O psicólogo Richard
Koestner, da Universidade McGill, analisou um estudo com 75 homens e mulheres
acompanhados por pesquisadores da Universidade Yale em 1950, quando os
voluntários eram crianças. Koestner e seus colegas examinaram diversos fatores
que poderiam afetar a capacidade empática na fase adulta, mas um em especial
lhe chamou a atenção: o tempo que o pai passava com os filhos. “Ficamos
espantados ao descobrir que o carinho recebido pela dupla pai-mãe em si não fez
diferença significativa em relação à empatia. E nos surpreendemos mais ainda ao
constatar quanto era forte a influência especificamente paterna”, diz Koestner.
A psicóloga Melanie Chifre Mallers, da Universidade Estadual
da Califórnia em Fullerton, também descobriu que filhos com boas lembranças do
pai eram mais capazes de lidar com as tensões cotidianas da vida adulta. Na
mesma época, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Toronto submeteu um
grupo de adultos a um scanner de ressonância magnética funcional para avaliar
as reações quando observavam o rosto dos pais. Imagens da mãe provocaram, de
imediato, maior atividade em várias regiões cerebrais, algumas associadas ao
processamento de características da face. Já o rosto do pai acionou, em
primeiro lugar, circuitos no núcleo caudado, uma estrutura relacionada a
sentimentos de amor.
As evidências mostram que o homem contribui de forma única
com os filhos. Mas o contrário não é necessariamente verdadeiro: crianças que
não convivem com ele na mesma casa não estão de forma alguma condenadas ao
fracasso. Embora o pai seja importante, esse papel pode ser substituído.
Obviamente, conhecemos crianças que cresceram em circunstâncias difíceis, mas
que hoje desfrutam de uma vida rica e gratificante. Nem todos se tornam o
presidente dos Estados Unidos, mas Barack Obama é um exemplo do que pode ser
alcançado por uma criança que passou a infância sem pai, mas conseguiu superar
a situação. A paternidade tem a ver com orientar as crianças para que possam
ser adultos felizes e saudáveis, à vontade no mundo, preparados para viver
relações de afeto, respeito e cuidado e, eventualmente, ser pais ou mães.
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Fonte

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